Visitei o Salmo 91



Ele permanece aberto em milhares de casas. Muitas famílias, tanto de confissão católica como protestante, fazem do livro sagrado aberto no Salmo 91, a principal decoração de suas salas. Quase que declarando o próprio lar como sendo literalmente a descrição feita nas primeiras palavras do poema: “Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará.”

Há razões consistentes para assim crer, esperar e confiar. Afinal, a sequência do texto vai reafirmar os desejos em relação ao hóspede santo: “Ele é o meu Deus, o meu refúgio, a minha fortaleza, e nele confiarei.” Morar num esconderijo e refúgio assim, e ainda mais com a presença de um ser que posso chamar de Altíssimo, Onipotente e meu Deus, traz grande conforto para o coração que anda por fé.

Apesar do início eloquente e grandioso, a poesia não se furta a realidade e riscos da vida. Das declarações que asseguram a presença do Todo Poderoso, agora passa a considerar e admitir os perigos que ameaçam a todos nós, “laço do passarinheiro”, “peste perniciosa”, “espanto noturno”, “seta que voe de dia”, “peste que ande na escuridão”, “mortandade que assole ao meio-dia”, enfim, perigos, armadilhas, violências, tudo atacando até mesmo aqueles que seguem o Altíssimo.

E qual a solução que o Salmo 91 aponta? Isolamento! Depois da lista de pragas do parágrafo acima, no versículo 9 o poeta declara onde pode haver proteção real: “... tu, ó Senhor, és o meu refúgio! O Altíssimo é a tua habitação. Nenhum mal te sucederá, nem praga alguma chegará à tua tenda.” Ou seja, ao morar com ele encontramos proteção. E exatamente como essa proteção pode se materializar? Somente mediante as ordens de Deus: “Porque aos seus anjos dará ordem a teu respeito, para te guardarem”.

Não seria este um salmo meramente motivacional? Construído com palavras bonitas, como “anjos”, apenas para alimentar a fé sem qualquer garantia? Para muitos, pode ser. Eu disse, “pode ser”, não disse que é. A pergunta quando lemos um texto tão poderoso, deveria ser outra, algo como “quem exatamente habita no esconderijo do Altíssimo?”. Penso que são aqueles que se renderam ao incondicional amor de Deus e com ele estabeleceram uma aliança num profundo relacionamento: “Pois que tão encarecidamente me amou; pô-lo-ei num alto retiro, porque conheceu o meu nome. Ele me invocará, e eu lhe responderei”.

Para estes, os que vivem a profundidade de um relacionamento de amor com Deus, Ele, como um Pai, finaliza a oração do Salmo com uma palavra doce, confortante e repleta de esperança: “Dar-lhe-ei abundância de dias e lhe mostrarei a minha salvação.”

Escrevi sobre este Salmo por conta de uma visita que fiz no último domingo. Foi quando estive com uma irmãzinha amada de nossa comunidade, Benedita, com mais de 80 anos, lutando no leito de um hospital contra um violento câncer. Sua voz está bem pequena e baixa, sua audição bem fraquinha, porém continua lúcida. Das coisas que faz ali no hospital diariamente, uma que não pode faltar é a leitura do Salmo 91, sete vezes ao dia. Sua filha lê, quando chega na última palavra do Salmo, “salvação”, ela ergue o indicador mostrando que foi uma, depois de lido outra vez, ergue outro dedo, indicando duas, e assim sucessivamente. Ao final de cada leitura, ela sorri e, com aquele sorriso, louva ao Criador dos céus e da terra. Foi profundo, eu sei que por alguns instantes estive com ela bem ali, no esconderijo do Altíssimo. Paz!


Pr. Edmilson Mendes


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